Sarriá, 5 de julho de 82.

É com um enorme prazer que, nós do Arte do Futebol, damos o espaço para o pessoal da Revista Doentes por Futebol, uma webrevista criada com o intuito de trablhar de maneira independente, com análises bem apuradas.

Esta revista que, já teve em seu staff, o já entrevistado pelo AdF André Rocha (atualmente na GloboEsporte.com), nos autorizou a colocar os textos da seção “Carimba que é Old” no Arte do Futebol, e é com o maior prazer que vamos colocá-los aqui. Semanalmente, teremos um novo texto da seção “Carimba que é Old”. Depois a seção se tornará mensal.

Sds.

Cleyton Santos

[Este texto é da edição nº01 da Revista Doentes por Futebol, tenham todos uma excelente leitura]

*POR JOSÉ RENATO BONVENTI

A ansiedade era tanta, que passei a noite em claro, devorando tostados (nosso misto quente) e lendo pela milésima vez os jornais do dia anterior.

Logo cedo, a movimentação de portas batendo e passos apressados nos corredores do hotel demonstravam que aquele dia seria especial.

Dezenas de ônibus formavam fila no estacionamento, e antes de entrar num deles, com o motorista impaciente já me apressando, tive que dar uma bronca num alemão que insistia em perguntar se aquela bandeira vermelha preta e branca era do Flamengo. Nunca tinha passado
por ofensa semelhante…

O comboio vagarosamente avançava no trajeto de pouco mais de uma hora entre Salou (pequeno balneário espanhol, que durante 15 dias foi a praia de Copacabana
da torcida brasileira) e Barcelona.

Por onde passávamos, éramos saudados como heróis, o que só contribuía para que a batucada, puxada por João Nogueira (sim, o sambista estava no grupo) se
animasse mais ainda.

Com cinco horas de antecedência, e sob um calor escaldante, nos apertamos nas arquibancadas, uns dez metros atrás daquele gol que ficaria quase tão conhecido e
amaldiçoado quanto o do Barbosa no Maracanazzo.

Longa espera, até que chegou o momento da consagração. E não havia como perder: invictos,
jogando pelo empate, encantando o mundo; contra Italia capenga, que não falava com a imprensa, tinha a desconfiança da torcida, e que até aquele momento só havia ganhado um jogo, contra a Argentina do garoto Diego.

O script daquela tragédia é mais do que conhecido: Júnior atrasado vendo o italiano livre marcar; Sócrates empatando numa jogada genial; depois Cerezo que nunca falhava, fazendo uma jogada bisonha (lembram-se daquele treinador do ginásio que certa vez interrompeu
o jogo para esbravejar: não se atravessa bola pelo meio no campo de defesa, c…….?); e o fenomenal Falcão fazendo o gol que parecia salvador.

Foram menos de dez minutos de euforia, até que num bate rebate, o carrasco Paolo Rossi entrou para a história como o novo Gigghia.

Lembro-me da angústia daqueles minutos finais: alguns já chorando; um senhor atrás de mim rezando; o Mineirinho (um sujeito folclórico que havia se transformado no líder informal da nossa torcida) gritando que “não era possível e que ainda iríamos empatar“; muita gente gritando gol naquela cabeçada do Oscar e dizendo que a bola tinha entrado; e por fim, meu amigo dizendo o que todo mundo havia visto, mas que ninguém queria ouvir: “Acabou”.

A volta foi em clima de velório, e no dia seguinte, o que mais se ouvia eram pessoas pagando a conta do hotel, se despedindo e voltando para o Brasil. Por pior que tenha sido a frustração pela derrota na finada e nada saudosa Sarriá, até hoje eu não consigo entender como alguém pôde jogar fora uma oportunidade que na maioria das vezes seria a única, de conhecer melhor a Espanha, talvez outros países da Europa, e acompanhar o restante da Copa.

No dia da final, saímos cedo, viajamos por mais de 5 horas até Madri, e inacreditavelmente ninguém quis ir ao jogo. Falavam em dormir, voltar ao Brasil, descansar… Com quinze anos e já completamente fanático, sabia que era um momento que iria guardar para sempre. Fui a pé e sozinho para o Santiago Bernabeu.

Sou ítalo brasileiro, vibrei e me emocionei com o título da Azzurra, e na saída do estádio, senti literalmente na pele, a real dimensão da importância daquele time do Telê. Estava usando uma camisa amarela de péssima qualidade, daquelas que você ganha só para ser identificado pelos colegas da excursão, quando dois rapazes italianos eufóricos pelo título, me abordaram desesperados para trocar uma camisa oficial da seleção campeã do mundo, por aquele pano amarelo que não agüentaria nem mais uma lavada. Quando aceitei, parecia que haviam conquistado outro troféu…Guardei a camisa intacta por muito tempo, até que se perdeu numa dessas mudanças ou limpezas de guarda roupa que minha mãe de tempos em tempos insistia em fazer.

O que não se perdeu, porém, foi o respeito e a admiração por um time que mostrou ao mundo que tão importante (ou até mais) quanto ganhar é encantar e dar espetáculo, saciar a vontade de quem é Doente por Futebol.

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